Não é todo dia que se ganha na loteria, tomar todos os vinhos do Domaine de la Romanèe-Conti com o próprio Aubert de Villaine equivale a um prêmio e tanto.
No Paladar de hoje sai um relato do almoço com detalhes. Aqui faço um breve comentário sobre cada vinho, todos de 2004, exceto o Montrachet, que era 2000.
O Echézeaux: quando chega é um vinho de wow! Tem aquele ataque no nariz de uma Pinot exuberante, delicioso, sedutor, carnudo. Mas com o tempo foi ficando meio fácil demais, um toque de caramelo, o mais simples (olha que audácia!), um grande vinho, não há dúvida, mas quando se pode comparar…
O Grand-Echezeaux: o mais decepcionante, a primeira garrafa eu ousaria dizer que tinha um toque de brett, algo desequilibrado para o lado escuro, pouco vivaz. Pedi para provar da segunda garrafa aberta, idem, melhor, mas assim mesmo, pouco eloqüente, não entusiasmante, virtudes contidas demais.
O Romanèe-Saint Vivant: este já dizia a que vinha, bela acidez, muita fruta é claro, pela idade jovem, mas com estrutura e qualidades que prometem um futuro interessante. Bom, um dos melhores, até pelo preço.
O Richebourg: aqui já comecei a tirar o chapéu, austero e cheio de si, mas com toques perfumados e nuances belíssimas da Pinot no que tem de melhor, consegue ser ao mesmo tempo delicado e firme, me fez lembrar uma bela imagem de Gerald Asher: é como tocar um gato, macio, sedoso, mas você sente a musculatura lá embaixo. Como se pode notar nas minhas rabiscuebas na caderneta, eu que só dou notas para minha própria orientação e lembrança, taquei um F19+ nele, que no meu código quer dizer uma espécie de summa cum laude.
O La Tache: aqui já estamos no reino dos absolutos, não era o melhor para mim, mas é preciso respeito por tamanha qualidade e imponência, um vinho de silêncios e chiaroscuri, como diria meu amigo Didú, imaginem quando estes vinhos, todos eles, ganharem sua década de garrafa e os aromas terciários da maturidade!
O Romanée-Conti: saímos da esfera da mortalidade, de um mito não se fala, não que seja perfeito, apenas pela raridade, pelo peso do nome e pelo preço, já não se trata de vinho propriamente dito, passa a ser um emblema de toda uma produção, de toda uma região, como é o Vega-Sicilia na Espanha, os Lafite em Bordeaux, já não é um liquido que se bebe, mas um acontecimento vinícola uma garrafa destas ser aberta e compartilhada.
O Montrachet: elegante à exasperação. É tão elegante, mas tão elegante, que dá vontade de dar uma despenteada nele, tirar alguma coisa do lugar. Tem aquela eletricidade que se descreve na Chardonnay no auge da perfeição, aquela acidez viva, que faz sorrir sem exuberância. É um vinho que implode os sentidos, de repente a gente fica pensantivo, um pouco perplexo e um pouco surpreso, mas como? Os de Madame Leroy eram mais cativantes, mais amigáveis, este é muito tranquilo, não precisa dizer nada, fica ali e quando voce percebe está pensando nele dias depois, totalmente apaixonado.
