Meu grande herói intelectual, o pianista canadense Glenn Gould, tinha uma fórmula complicada a respeito de gente, algo como 2 horas e meia sózinho para cada hora passada em sociedade. Cada vez mais monacal, hesito zilhões antes de aceitar qualquer convite, sempre preferindo ficar em casa lendo e falando sobre metafísica com a Frederica, que nunca discorda, nem retruca.
Mas aceitei ontem ir jantar com os autores do blog amigo Que bicho me mordeu.
Tensão prévia. Cheguei ao restaurante, não reconheci os dois pela única foto do blog deles. Tinha um casal na mesa ao lado, bem blasé, com um papo chatíssimo sobre o carro novo. E se fossem eles? Não eram, felizmente. Tem vezes em que as crônicas mundanas de Glupt! têm bom final e nem toda vida virtual perde o encanto na realidade. Passei horas felizes conversando com amigos de infância instantâneos (embora eu possa ser pai deles, licença poética cronológica) . E ainda ganhei um chocolate biodinâmico de Claudio Corallo, relido por Enric Rovira, aquele torrão de terroir africano e uma bela surpresa (sorry meninos, achei que era chá mesmo!): um Pago Negrelada 02 da Abadia Retuerta.
Besteira minha pensar que poderia sair errada uma conversa com duas pessoas que gostam do Mugaritz e que têm dois gatos
.
[Saul Steinberg fotografado por Irving Penn]