luizhorta

Archive for the ‘As crônicas mundanas de Glupt!’ Category

Blind tasting

In As crônicas mundanas de Glupt! on August 17, 2008 at 3:13 am

Meu grande herói intelectual, o pianista canadense Glenn Gould, tinha uma fórmula complicada a respeito de gente, algo como 2 horas e meia sózinho para cada hora passada em sociedade. Cada vez mais monacal, hesito zilhões antes de aceitar qualquer convite, sempre preferindo ficar em casa lendo e falando sobre metafísica com a Frederica, que nunca discorda, nem retruca.

Mas aceitei ontem ir jantar com os autores do blog amigo Que bicho me mordeu.
Tensão prévia. Cheguei ao restaurante, não reconheci os dois pela única foto do blog deles. Tinha um casal na mesa ao lado, bem blasé, com um papo chatíssimo sobre o carro novo. E se fossem eles? Não eram, felizmente. Tem vezes em que as crônicas mundanas de Glupt! têm bom final  e nem toda vida virtual perde o encanto na realidade. Passei horas felizes conversando com amigos de infância instantâneos (embora eu possa ser pai deles, licença poética cronológica) . E ainda ganhei um chocolate biodinâmico de Claudio Corallo, relido por Enric Rovira, aquele torrão de terroir africano e uma bela surpresa (sorry meninos, achei que era chá mesmo!): um Pago Negrelada 02 da Abadia Retuerta.

Besteira minha pensar que poderia sair errada uma conversa com duas pessoas que gostam do Mugaritz e que têm dois gatos.

 

 

 

 

 

 

 

 

[Saul Steinberg fotografado por Irving Penn]

No soup for you!

In As crônicas mundanas de Glupt! on January 3, 2008 at 10:43 pm

Último comentário cinematográfico antes que me mudem de ramo. Isto é um blog sobre vinhos! Mas hoje tirei uma folguinha, hepato-férias. E descobri montes de novidades, que todo mundo já deve saber, como as do Agente 86 e agora, o chocolate final do dia, aquele com menta que aparece no travesseiro do hotel: um filme novo de Wes Anderson! Se já tiver passado aqui em SP não me digam! The Darjeeling Limited. Oba!

P.S.: Só para não ficar totalmente afastado do assunto, lembrei de uma lojinha de Londres, H.R.Higgins (tem 10 anos não vou lá, olhei no Google o endereço, já não dava para ter de mémoria: 79 Duke Street)black_darjeeling_second_flu.jpg, onde vendem a granel o melhor Darjeeling possível. E quem quer saber o que é tanino…nada mais exemplar que chá preto: verdadeira aula de tanino.

Chegando

In As crônicas mundanas de Glupt! on December 11, 2007 at 12:38 am

cdg3.jpgcdg2.jpgcdg.jpgEu adoro aeroportos, por alguma razão. Mas nenhum é tão adorável quanto o Charles de Gaulle, talvez por ser o mais confuso, francês e Jacques Tati de todos. Os terminais gigantescos, cartesianamente desorganizados (sim, parece tudo em ordem, mas é uma barafunda, todos são 2, 2A, 2B, etc mas o E é depois do F e daí prá frente), toda aquela gesticulação tão francesa, puro vazio cheio de ritual, ou vice-versa.

Agora inauguraram a ala nova, que já tem goteiras. E puseram o baldinho mais Hulot do mundo debaixo das gotas. Como chovia copiosamente em Paris, o ping-pinga fazia um som engraçado naquele ambiente ultra-pseudo-moderno.

Para passar o tempo fiquei experimentando perfumes. Todos muito florais e adocicados. Até mesmo tradicionais casas como Guerlain e Chanel, soltaram seus “for men” docinhos e enjoativos. Depois ficamos nos queixando da mickeymousização dos vinhos, que também caminharam para o mesmo rumo. Vivemos uma época de infantilização dos gostos, sem juízo de valor, é o espírito da época. Não tem mais perfume sóbrio e masculino, com enfase em couro, madeira e tons fechados. E as pessoas não querem vinhos complexos, que peçam atenção e dedicação. Não estou lamentando! Só constatando. No final não comprei perfume algum, não gostei de nada, tinha um com cheiro de rúcula!

Inesquecível

In As crônicas mundanas de Glupt! on December 8, 2007 at 9:11 pm

drolma.jpgNeste ambiente de club inglês (com extintor de incêndio como contraponto cômico) fiz a melhor refeicao desta viagem e talvez da minha vida. Comemoracao tardia do meu aniversário e gentileza dos meus amigos catalaes. A coisa foi de trufas para cima e eu me senti personagem de Dickens.

Domingón

In As crônicas mundanas de Glupt! on December 2, 2007 at 6:30 pm

vina-herminia.jpgO bom da vida é ter amigos. E o bom dos amigos é que eles também dividem os deles conosco, numa espiral sem fim.

 Hoje aqui em Barcelona, meus quase parentes Manel e Imma fizeram um almoco perfeito, que culminou com duas garrafas trazidas por seu simpático convidado, Peré Durán.

Este bom cultor da arte da amizade, abriu sua adega e veio com dois Riojas clàssicos, Viña Herminia 1970. Um suspense abrir estas preciosidades, as rolhas se desmanchando, a cor esmaecida com reflexos telha.

Passados para o decanter um de cada vez, estavam fechados. Mas quando o arroz negre (arroz com tinta de lulas) foi servido, já exibiam toda sua complexidade aromática. Cada cheirada oferecia uma coisa, tâmaras, tostado discreto, figos secos, ameixas pretas esquecidas pelo tempo.

O mistério da Rioja, estes vinhos tinham 37 anos! E uma acidez perfeita, redondos, complexos, deliciosos, sem nada de errado. O mistério sobre a Rioja, porque, para que? ¿ (aproveitar que tenho este acento no teclado): PARA QUE¿¿¿??? na Rioja, se fazem vinhos modernos? Chamem a Unesco, a ONU, chamem a defesa civil e o Al Gore! Que parem de fazer vinhos modernos na Rioja, por Deus!

Vinhos modernos podem ser produzidos em qualquer país, qualquer terroir. Riojas clássicos só ali. Entao que se danem os Remirez de Ganuza e os Roda e os Contador! Que sejam condenados a fazer vinhos na Austrália, pelo sacrilégio de desperdicar terras riojanas para produzir Coca Cola.

Hoje estou radical pra caramba! E volto para lá, porque ainda temos meio decanter de Viña Herminia para aproveitar.

Vários momentos hispánicos

In As crônicas mundanas de Glupt! on November 18, 2007 at 4:25 am

imagem-008.jpgSair para jantar e levar um vinho é sempre uma aventura. Primeiro porque toda garrafa é uma incógnita, pode estar bouchonée, pode estar cozida ou mal conservada. Depois porque o preço de rolha que se cobra nos restaurantes vai do simpático ZERO real até o díficil de tragar 90 reais. A rolha é cabível, os restaurantes trabalham com margens de lucro sobre venda de bebidas (e comida também). Não são um serviço público. Depois há que considerar que uma boa taça custa uma nota, a taça mesmo, uma Spieglau ou Riedel, quebrada, vale quase o preço de uma garrafa. Mas não é preciso exagerar. Levar um vinho não é um ato de pão-durismo, é homenagem à comida e ao vinho, que se pretende fazer encontrar.

Fui ao Aguzzo, com duas garrafas, um Rioja favorito, o Remelluri Reserva 99 e um Clarión Seleción 01 das Viñas del Vero, grande empresa de Navarra.

O Remelluri era o esperado, Rioja não de todo moderno da parte basca da denominação de origem. Gostoso, elegante, saboroso, que acompanhou bem a carne. Mas o branco foi uma surpresa, mais uma peripécia do destacado enólogo Pedro Aibar. Sem exagero poderia chamá-lo de Montrachet espanhol, branco classudo, encorpado, mas fresco pela acidez, um vinhaço que só melhorou e atravessou a comida do início ao fim fazendo os comensais felizes. Aibar não revela as uvas e os cortes envolvidos, este tinha algo de chardonnay, madeira presente, talvez uma viura tão capaz de envelhecimento, como mostram os Tondonia. No nariz era um sedutor e na boca um verdadeiro companheiro para qualquer coisa. Que beleza!  Seis anos de idade, e com vida pela frente. Eu adoro a Granja Nuestra Señora de Remelluri, belíssima propriedade de Jaime Rodriguez, nada menos que o pai do talentoso Telmo Rodriguez, passei ali umas horas preciosas. Mas o branco do Somontano roubou a noite, em termos vinícolas.

No contra rótulo Aibar coloca um poema de Bashô:

Admirad bien la luna, antes que corten los juncos del río.

Que enólogo escreveria algo assim no seu vinho? Todo vinho feito com esta dedicação é feito para ser admirado como o luar,  antes que suma, antes que os juncos que margeiam o rio sejam cortados. Tudo é transitório demais para perdermos tempo!