Tempos tão aborrecidos, alpinistas e gurkhas culturais, tanta gente que sabe duas coisas afetando falar de uma terceira, que nem sentido tem. Arrivismo trotando. Antes de desanimar pensei na raiz latina de inteligência, forçando a etimologia: inteligere, ler, entender, no fundo, dentro.
Basta fechar o portãozinho do Jardim de Epicuro. Da cachola retirei alguns confortos (dois coincidentemente fornecidos numa mesma edição do NYT): Calder, Feiffer. E um vídeo de François Simon sobre o hotel Westminster com música de Brian Eno. O BWV 988, em todas as versões disponíveis. Marianne Moore, Saul Steinberg, Wallace Stevens. Tio Vanya, The Tempest: “Since I have my dukedom got…”; um joelho de Claire, um raio verde, uma carta de Paulo aos gentios (terá ido como? Um email dele teria sido mais rápido?); o caracol de Matisse na Tate, a rendição de Breda, a batalha de Paolo Uccello (na sua guerra entrei, da sua guerra sai, não matei ninguém, nem morri). Acreditar que a fé sem compaixão é vazia. Foucault sobre Borges e como é possível sim, rir com a filosofia; a Ética a Nicômaco; o sujeito de Hipona pedindo pureza, mas não imediatamente; Audrey Hepburn com sua Funny Face; as samambaias do doutor Sacks, o nascimento de Olivia em Paris to the moon; o ensaio da Yourcenar sobre Piranesi e o de Nicholson Baker sobre o tamanho dos pensamentos; o livrinho de Jan Morris sobre a Espanha, o livrão dela mesma sobre Veneza. Liebling, Kermit Lynch, Roberto Calasso, Jim Harrison, Edmund White, M F K Fisher. Bill Evans tocando naquela manhã estática de Buenos Aires. Ah, e Buenos Aires. O Modern Jazz Quartet, Bach, Bach e Buxtehude. A escada rolante até ver a Rotunda na estação Tibidabo, sempre tem uma estação de metro, sempre é fevereiro frio, sempre tem o van der Weyden no Prado, a cadeira de Tapiès no teto da fundação, o De Chirico reconfortante. Zurbarán, a idéia do norte, o táxi londrino, Saint Eustache e a bíblia surpresa de Keith Haring. O som das ruas de Paris, como Cherche-Midi, rolando na língua, a melancolia de Montevidéu. E a Frederica.
Minha cabeça é meu playcenter. De certa maneira estou retomando-a, ela, a cabeça, que fora ocupada como a casa do conto do Córtazar. Minhas poetas citadas pelos outros, minhas músicas escutadas pelos outros. O que é meu, divido, ou dou, mas quando quero. Agora já e discricionáriamente, não quero mais doar, nem emprestar. Peguei meus pensamentos de volta, reuni minha turma de fantasmas culturais íntimos e vou redistribuí-los. Quando quiser. Ou como disse um deles: Un repas, même à deux, est collectif.