luizhorta

Archive for September, 2008

jet lag doméstico

In Idéias gerais on September 29, 2008 at 2:26 am

Cada um passa o domingo onde quer. Passei o meu em Nova York. E olha que não vou lá desde 1980. Basta um pouco de mudança no mobiliário. Assim: fiz o sanduba da temporada aqui de casa. Duas fatias de brioche, um naco de camembrie (como meu amigo Américo chama os indistinguíveis camembert e brie nacionais, que são iguais. Bons. Mas iguais) e umas fatias de presunto com gordura. Depois um tempo de exposição ao calor, para derreter o queijo.
Uma taça de Dr. L Riesling, o genérico da Loosen.
E cargas letais de Bobby Short cantando coisas do estilo K-RA-ZY for you. Pronto.
Estar frio e ventoso com sol ajuda. Estar silêncio total também. Meu cabelo crescido resolveu ficar como o de Graydon Carter, também novaiorquizando mais o dia. E ler a New Yorker foi o cúmulo. Sem mala perdida, nem check in na imigração.

Amanhã volto para São Paulo. Até.

teoricamente, clicando na palavra Bobby Short tocará uma faixa, mas não garanto.

Peñin

In Idéias gerais on September 26, 2008 at 1:55 am

No Paladar da semana, bate-papo com o crítico de vinhos José Peñin:

http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup247767,0.htm

Bad news

In Idéias gerais on September 18, 2008 at 12:37 am

Didier Dagueneau se foi. Como ele era uma espécie de hippie selvagem, capaz de doçuras e grosserias numa mesma proporção (embora como um sofisticado iconoclasta devesse sempre estar rindo…não, ironia não é para usar comedidamente!) não poderia mesmo morrer de forma convencional. Tinha que ter um toque histriônico, um desastre de avião na região de Cognac.
Numa entrevista ano passado na Decanter ele falava de como ficou biodinâmico e depois abandonou os cavalos, achou bobagem. E assim mesmo produziu o Sílex, Loire engarrafado.

Blog novo

In Idéias gerais on September 17, 2008 at 8:53 pm

Didú Russo, colega de degustações, companheiro de viagem ao Uruguai e pai do Ramatis, segundo degustador do What’s up, estréia seu blog onde vai desaguar as inúmeras provas de vinhos de que participa e os famosos vinhos que levam a qualificação de “Secondo me”. Para visitar e revisitar em:
http://blogdodidu.zip.net/

Da perna

In Idéias gerais on September 17, 2008 at 12:50 am

Concerto ao vivo é uma coisa que me exaure. Já fui o suficiente na vida. Assim mesmo lá fui, mais um. Passei o primeiro tempo um pouco enfarado, carregando um peso de uma indelicadeza desnecessária, meio indisposto como tinha estado o dia todo e com uma bruta dor de cabeça. Depois do intervalo suspirei: agora está quase no fim. Então Jordi Savall sapecou um Todo mundo en general. Primeiro vocal, depois improvisação sobre as glosas de Arauxo. Quando percebi tinha uma coisa estranha acontecendo no meu globo ocular, flutuando em água e os pelos do meu braço ficaram de pé imediatamente como se fosse uma ordem unida. Só a música é inexplicável, porque ela é abstrata, intocável e assim mesmo capaz de tirar do lugar. As outras artes todas, mesmo as mais efêmeras como dança ou performance, igualmente existentes no tempo, têm pelo menos o espaço, tem algum objeto que justifique a emoção. Música é bruta, não precisa conotar nada, não é a respeito de nada, é um dardo jogado diretamente no espírito com uma maldita pontaria. Para quem pensa que o jazz inventou a improvisação, a prova de que a improvisação é o prazer do músico desde sempre. Jordi Savall práticamente saiu do palco, levantou-se sem se mexer, desapareceu, anulou tudo em volta e ficou com sua viola da gamba falando consigo mesmo em um estado alteradíssimo. Uma forma benigna de alucinação coletiva comandada por ele, curtinha, 4 minutos, cinco? Foi o momento que valeu ter rompido a rotina e ido ao concerto.

Tem gente que conta moutonzinhos

In Idéias gerais on September 15, 2008 at 4:06 am

Insônia, quer dizer, o habitual. Aquele olhão brilhando no escuro e o cérebro (supondo sua existência, apud Amérique) a pleno, sem off. Fico lendo o que passa pela mão. Releio a lista das 25 personalidades do ano da revista Decanter, de 1984 até hoje. Listo quantas conheço e quantas vezes as encontrei, sou virginiano total, adoro listas: Angelo Gaja (2x), Miguel Torres (2x), Georg Riedel (1x, ainda bem, sujeito assustador), Ernie Loosen (1 também) e Jancis Robinson (umas tantas). Um quinto dos premiados. O que isto quer dizer? Nada, apenas que passei mais meia hora em claro.

Vinho-de-semana movimentado

In Idéias gerais on September 15, 2008 at 2:37 am

Um amigo reclamou que quase não falo mais nos vinhos. É que vinho é só uma parte (importante, é fato) da vida.

Fui a um jantar na noite de sexta-feira, para celebrar o “noivado” de um casal de amigos. Noivado entre aspas, pois a palavra parece soooo yesterday. Eles se casarão nas neves francesas de janeiro. Enquanto isto vão abrindo umas garrafas, somadas a algumas levadas pelos convidados.

Começamos com os frescos alsacianos do Domaine de Bott-Geyl. acho que o primeiro era um Pinot Gris, mas esqueci de anotar. O segundo era um Riesling, com certeza, gostei mais do primeiro, acho que Riesling gosta de envelhecer, embora se lamente tanto o declínio do estilo trocken (seco), eu sou fã dos um tico mais adocicados e encorpados, com um par de anos na garrafa.

Passamos ao Grüner Veltliner Weingut Stadt Krems 2007. Eu que levei, trouxe na mala da Aústria. Um bom Grüner igualmente jovem. Com duas curiosidades que vale contar: tampa de vidro. E o vinhedo é municipal, pertence à cidade de Krems, uma linda cidade de bolso no Wachau, com umas ruas tão estreitas que eu vi o motorista suando para atravessá-la, ano passado, durante a Vievinum. Fico me alongando contando estas coisas, mas preciso escrever isto nalgum lugar: o motorista era a cara do Max von Sidow. E se não fosse muito hábil teria levado meia Krems embora numa batida.

Daí bebemos o vnho que eu estava cobiçando, um Irouleguy, esta pequena D.O.C. da região basca francesa, Herri Mina branco. Tinha tomado uma garrafa em dezembro, com um porco assado! É um branco denso, boa acidez, cheio de estrutura, daqueles que alguém disse que às cegas poderiam passar por tintos. Uvas Gros e Petit Manseng, Corbu.

Então uma surpresa, um Merlot Reserva da Vinícola Aurora, 1999. Um vinho brasileiro de 27 reais que parecia um claret decente de algum Chateau meio esquecido, vinho perfeito para compor painéis e enganar todo mundo. E um “Porto” de Chardonnay, feito na Argentina, sem rótulo, parecendo aquelas garrafas de mel que são vendidas no interior. Não tinha traço de tipicidade de Chardonnay, não era Porto com certeza, era mais um vin doux naturel branco. Mas era bom! Vinho quase nunca precisa nome e sobrenome, basta ser digno.

Para terminar, uma brincadeira de harmonização com chocolates, alternando um Languedoc de Virgile Joly e um Sauternes Rousset-Peyraguey, sauterníssimo, aquele maravilhoso cheiro de cola de carpete da botritis.

E ufa! Uma surpresa, envolta num saco, cheira e cheira, não era vinho, tinha um cheiro cítrico e um toque de vela apagada dentro de uma catedral! Um tipo de Calvados, quer dizer, um destilado de maçã, da Normandia, mas de uma apelação diferente, outro universo paralelo.
Eram 3 da manhã e garoava, bem parecia mesmo a costa norte úmida da França, pelo menos eu gostaria que parecesse.
Um viva aos noivos, um viva ao Père Jules, seja lá quem for, que batizou o Pommeau de Normandie (um detalhe, com meros 17 graus de alcóol, quase o mesmo que muitos Malbecões aqui da região, é o destilado digestivo perfeito).

Telmo

In Idéias gerais on September 12, 2008 at 3:18 am

Artigo publicado no Paladar de ontem sobre o enólogo espanhol Telmo Rodriguez:
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup239793,0.htm

Laurie, so sorry

In Idéias gerais on September 7, 2008 at 9:26 pm


As vanguardas não envelhecem, o público sim. Laurie Anderson compôs a trilha sonora da minha vida pré-adulta. Foi a companheira musical (junto com o velha peruca J.S. Bach) de noites intermináveis de discussões sobre arte, existência e the meaning of life, num viés Pithon, claro. Ainda agora, ocupa 700 mb dos 2gbs do meu ipod. Quase metade. È um dos máximos que a obra de arte completa alcançou, substituída pela cozinha de Ferran Adrià, aquela mistura feliz de high and low, pop e cutting edge.
Então, porque não fui ve-la no Sesc Pinheiros por modestos 40 reais de ingresso? Talvez por uma crescente entropia que sinto no deslocamento para o “ao vivo”. Talvez pelo invencível atrito estático, olhando a chuva caindo no bambuzal, ouvindo a juriti cantando no quintal. Uma versão possível para “Days, I remember cities.
Nights, I dream about a perfect place”.
Tudo isto que se chama sob o signo de saturno: preguiça.

Ah Laurie, ainda espevitada nos seus 60 anos, os fãs estão um caco, caseiros, blogueiros, virtuais. Desculpe.

Falastrão

In Idéias gerais on September 4, 2008 at 12:34 am

Eu até gosto de bater papo. Mas em geral prefiro jornadas silenciosas em táxis ou transporte coletivo com passageiro ao lado. Para isto a defesa é o ipod, melhor invenção pacífica de todos os tempos. Assim mesmo tem gente que rompe esta barreira simbólica de quietude. Este post tortuoso é só a escada para a definição perfeita do taxista palrador incansável que ouvi hoje: “motorista que não respeita nem jornal inglês”. Morri, rir, rir, rir.