Um amigo reclamou que quase não falo mais nos vinhos. É que vinho é só uma parte (importante, é fato) da vida.
Fui a um jantar na noite de sexta-feira, para celebrar o “noivado” de um casal de amigos. Noivado entre aspas, pois a palavra parece soooo yesterday. Eles se casarão nas neves francesas de janeiro. Enquanto isto vão abrindo umas garrafas, somadas a algumas levadas pelos convidados.
Começamos com os frescos alsacianos do Domaine de Bott-Geyl. acho que o primeiro era um Pinot Gris, mas esqueci de anotar. O segundo era um Riesling, com certeza, gostei mais do primeiro, acho que Riesling gosta de envelhecer, embora se lamente tanto o declínio do estilo trocken (seco), eu sou fã dos um tico mais adocicados e encorpados, com um par de anos na garrafa.
Passamos ao Grüner Veltliner Weingut Stadt Krems 2007. Eu que levei, trouxe na mala da Aústria. Um bom Grüner igualmente jovem. Com duas curiosidades que vale contar: tampa de vidro. E o vinhedo é municipal, pertence à cidade de Krems, uma linda cidade de bolso no Wachau, com umas ruas tão estreitas que eu vi o motorista suando para atravessá-la, ano passado, durante a Vievinum. Fico me alongando contando estas coisas, mas preciso escrever isto nalgum lugar: o motorista era a cara do Max von Sidow. E se não fosse muito hábil teria levado meia Krems embora numa batida.
Daí bebemos o vnho que eu estava cobiçando, um Irouleguy, esta pequena D.O.C. da região basca francesa, Herri Mina branco. Tinha tomado uma garrafa em dezembro, com um porco assado! É um branco denso, boa acidez, cheio de estrutura, daqueles que alguém disse que às cegas poderiam passar por tintos. Uvas Gros e Petit Manseng, Corbu.
Então uma surpresa, um Merlot Reserva da Vinícola Aurora, 1999. Um vinho brasileiro de 27 reais que parecia um claret decente de algum Chateau meio esquecido, vinho perfeito para compor painéis e enganar todo mundo. E um “Porto” de Chardonnay, feito na Argentina, sem rótulo, parecendo aquelas garrafas de mel que são vendidas no interior. Não tinha traço de tipicidade de Chardonnay, não era Porto com certeza, era mais um vin doux naturel branco. Mas era bom! Vinho quase nunca precisa nome e sobrenome, basta ser digno.
Para terminar, uma brincadeira de harmonização com chocolates, alternando um Languedoc de Virgile Joly e um Sauternes Rousset-Peyraguey, sauterníssimo, aquele maravilhoso cheiro de cola de carpete da botritis.
E ufa! Uma surpresa, envolta num saco, cheira e cheira, não era vinho, tinha um cheiro cítrico e um toque de vela apagada dentro de uma catedral! Um tipo de Calvados, quer dizer, um destilado de maçã, da Normandia, mas de uma apelação diferente, outro universo paralelo.
Eram 3 da manhã e garoava, bem parecia mesmo a costa norte úmida da França, pelo menos eu gostaria que parecesse.
Um viva aos noivos, um viva ao Père Jules, seja lá quem for, que batizou o Pommeau de Normandie (um detalhe, com meros 17 graus de alcóol, quase o mesmo que muitos Malbecões aqui da região, é o destilado digestivo perfeito).
