luizhorta

Archive for April, 2008

Ensaio sobre a cegueira

In Idéias gerais on April 30, 2008 at 7:47 pm

Fiquei contente com o resultado dos top 10 da Expovinis. Eu sempre achei os Rio-Sol subvalorizados, são melhores que a maioria diz, embora não sejam espetaculares ou emocionantes, e custam 18 reais e 90 centavos, valor que eu julgo adequado para vinhos do dia a dia, nacionais e competitivos. É muito bacana tomar tops como Salton Talento ou Miolo Quinta do Seival, são bons, mas são caros e entram numa faixa de preço com competição à altura de argentinos e chilenos, sem dizer de meus queridos uruguaios, que são mais baratos. O Rio Sol acerta no preço pelo que oferece, um bom vinho correto, correto o bastante para ganhar uma degustação às cegas com avaliadores respeitáveis como Jorge Lucki, José Luiz Pagliari, Manoel Beato e Roberto Gerosa, to name a few.

Este o valor das degustãções às cegas, um exercício de objetividade.

espanto

In Idéias gerais on April 29, 2008 at 3:14 am

Não posso dar muitos detalhes, por ser algo em andamento como texto, mas compartilho com os leitores algo surpreendente que me aconteceu hoje, por generosidade de diversas pessoas amigas e de outras que nunca tinha visto antes: bebi um Château Le Puy 1957, ano do meu nascimento, e que não era mera curiosidade museológica, mas um perfeito bordeaux evoluido, com vivacidade na cor e na acidez e toda aquela complexidade que os anos deram ao líquido (e espero que a mim também!). Uma perfeição de vinho claret. Obrigado aos envolvidos nesta trama do acaso, eles sabem quem são e a quem meu agradecimento é dirigido.

Green grass

In Idéias gerais on April 28, 2008 at 2:03 am

Domingão indie rural, ouvindo Sam Amidon e Coco Rosie. Conversa , junto ao José Luiz Pagliari, de duas horas com Nuno Araujo, produtor biodinâmico português da Quinta da Covela, que trouxe um saco de terra para mostrar o solo. Bem insólito, tocar a terra do Entre Douro e Minho no bar chique do hotel Emiliano. Vinho só me dá surpresas.

As águas rolaram

In Idéias gerais on April 26, 2008 at 4:36 am

Ontem e hoje, ufa! Comecei com uma prova de 7 vinhos de François Lurton, com a presença do próprio. Decepcionantes, só um Malbec me pareceu interessante. Mas preciso achar as anotações, quando preciso consultar papelada é um sintoma de que não gostei, em geral escrevo tudo de mémoria, pois escrevo como agora, deitado com a Frederica no colo e a preguiça de madrugada de ir decifrar minha caligrafia.

Depois um almoço com M.Christophe Salin, diretor da Lafite Rothschild. Primeiro vinho, Chateau d”Aussieres, forte e novo mundista, apesar de um Languedoc. Aquelas uvas que podem ser tão voluptuosas, mas que são quentes e potentes pelo lugar, ficaram, infelizmente bem rústicas e pesadonas.  Languedoc, na minha opinião, só se presta à produção pequena, artesanal e com mão muito delicada, todos os grandões instalados lá tomaram uma bola entre as pernas da região, não conseguiram exprimir o local, incluindo (heresia total dizer isto) Daumas Gassac depois da fama.

Seguiu-se o Caro, que provei anos atrás logo que saiu, quando veio a enóloga, Estella Pertinetti e me pareceu na época só um vinho argentino com sobrenome importante. Como eu estava errado! Agora com um tempo bom de garrafa mostrou que a união de Catena e Lafite tinha que dar em coisa boa. Como estava ao lado do Monsieur, aproveitei e lasquei: “primeiro um vinho argentino feito na França, depois um francês feito na Argentina”…ele riu e concordou. Cara sincero, com 13 anos de trabalho no Chateau, aproveitou e confidenciou que não vê virtudes em Bordeaux branco, ligeiros e para aperitivo. E eu tinha gostado muito do que bebemos na chegada. Ele tapou a boca e falou baixo: “branco é na Borgonha, são os que eu gosto…”. Eu insisti: “mas e 2007, em que estão elogiando somente os brancos e Sauternes?”. Ele continuou rindo: “Borgonha…”.

Então veio o melhor, o Quinta do Carmo, produto da Lafite no Alentejo, espetacular, elegante, sério, muito melhor que o seguinte, o Carruades de Lafite, segundo vinho do Chateau! Esse era uma aula meio desequilibrada de bretanomices. O Quinta do Carmo arrasou, outro francês feito fora e melhor que o francês feito dentro. E para terminar (mea culpa) bebi dois cálices do Sauternes, também déuxieme vin, Charmes de Rieussec, toda aquela sauternidade, aquele cheiro de cola de carpete, aquela delícia, mesmo com seus 14 de alcóol. Bordeaux quando é bom, (estilo comendador Acácio) é bom. todos são da Mistral, não decorei preços, mas o Sauternes era bon marché, ainda mais pela qualidade que tinha. Estou com mania de listar vinhos que seriam ilustrativos de determinada variedade, região ou estilo. Este era um Sauternes exemplar, quando for preciso explicar de que se trata o lugar e seus vinhos usarei como modelo.

E fui para o champagne dinner de Morgane Fleury, champagnes biodinâmicos, safrados, todos 1995, cheguei a encostar a mão na lua! O Extra Brut era finíssimo, complexo e seco como uma lâmina de aço. O Doux ficou interessante com foie, mas o mais equilibrado, nuançado, cheio de detalhes, era o Brut. Muito, mas muito bom.

E no dia seguinte…40 vinhos do catalogo da Expand, mas conto amanhã.

Os biôs

In Idéias gerais on April 24, 2008 at 1:52 am

No Paladar de hoje a equipe do suplemento caiu de cabeça nos vinhos, em especial nos biodinâmicos. Os biodinamistas estão chegando, estão chegando os biodinamistas…dificil de cantar, mas leiam lá, vale a pena conhecer Nicolas Joly, o mundo precisa de gente meio lélé como ele, e os vinhos são uma delícia.

Boa sacada

In Idéias gerais on April 24, 2008 at 12:06 am

A simpática Bebel Baeta, competente colaboradora do blog do Saul, teve uma ótima idéia no seu próprio blog: Harmonizações visuais. Não conto o que é, visitem lá e vejam:

http://blogdabebelbaeta.blogspot.com/

Alma Negra

In Idéias gerais on April 24, 2008 at 12:05 am

O Rubén me perguntou que uvas compõem o corte do vinho de Ernesto Catena, Alma Negra. Demorei para responder porque fui procurar e o resultado é: não sei. Ele não revela as uvas que utiliza. Então o jeito é ir adivinhando no nariz e na boca, um bom exercício de degustação. Na próxima vez em que ele aparecer por aqui prometo tentar extrair o segredo.

Scoop

In Idéias gerais on April 22, 2008 at 12:20 am

Sem modéstia, o Glupt foi o segundo a ecoar as fofocas sobre o Mugaritz (o primeiro foi Glotonia, mas eles estavam la´no local e eu sou embaixador deles…) e o Paladar deu furo mundial, na frente até mesmo de François Simon, e-gullet e do próprio site da revista Restaurant. E com comentário! aqui a lista completa no portal do jornal:

http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art160436,0.htm

Ventos do norte

In Idéias gerais on April 21, 2008 at 5:00 pm

Sopram para este blog que um dos ídolos do Glupt! subiu e subiu mais na lista dos 50 melhores do mundo da revista Restaurant. Mais depois, ainda não estamos vendo com clareza tudo, mas as notícias são alvissareiras. Viva o Mugaritz! Quarto melhor restaurante do mundo (para eles, para mim é o melhor).

Sabedoria campestre

In Idéias gerais on April 16, 2008 at 2:32 am

Christian Moueix do Pétrus, eleito homem do ano para a revista Decanter, perguntado como se decide a comprar um vinhedo. “Visito no inverno, num dia de chuva e examino como é a drenagem do terreno”. Eu jamais pensaria nisto, iria no auge da primavera, me encantaria pela paisagem, compraria e daria tudo errado. Por isto não sou vinhateiro. E por não ter grana também…

A girondolândia

In Idéias gerais on April 13, 2008 at 5:42 pm

Não aguento mais ler sobre Bordeaux 2007 en primeur. Parece que realmente são os vinhos mais pífios dos últimos anos, um verdadeiro fiasco. Jancis Robinson, sempre com as melhores imagens literárias, chega a dizer que é a safra perfeita para aviões, que terão grandes nomes para servir…O que vai acontecer?

Primeiro, as grandes publicações vendedoras de vinho, como a Wine Spectator, tentarão mascarar o fato, dando destaque ao que está bom, os Sauternes e brancos. Depois entrarão em cena os spin doctors de Bordeaux para ajeitar a imagem. E finalmente os  esgotos onde eles desovam suas falhas, Rússia e certos países emergentes começados com a letra B principalmente, comprarão a coisa.

Gente que só fala, pensa e bebe Bordeaux para mim equivale a quem só gosta de Ópera. Nuca vai entender as delícias de um clavicórdio solo (Riesling?) ou de Antony & the Johnsons (Carignane?). Azar deles, sinceramente.  

Austríacos

In Idéias gerais on April 12, 2008 at 4:08 pm

Recebi ontem um cartão da família Kracher agradecendo por ter escrito na época da morte de Alois Kracher. Olha, ainda dói pensar de novo que aquele furacão de generosidade desapareceu aos 48 anos. Não é todo vinicultor que tem esta capacidade de encantar com vinhos tão maravilhosos e ao mesmo tempo liderar o ressurgimento de uma região inteira, eu poderia contar um punhado, como Luis Pato na Bairrada, Daniel Pisano no Uruguai, Angelo Gaja na Itália (em mais de uma região), gente que tem brilho no olho e leva prá frente, pessoas que acabam sendo embaixadores da cultura local, junto com o vinho que fazem e transcendem muito o mero interesse comercial, não são vendedores de vinho, mas de terroir, são um pacote cultural completo.

Daniel Pisano, por exemplo, queria que eu entendesse o Uruguai, não sómente gostasse dos vinhos e nem só dos vinhos dele. Me levou para todo lado, ao Senado, ao Estádio Centenário, para comer faina, mollejas, para ver o mercado. E agendou (sim! isto É GENEROSIDADE) 3 outros produtores para eu visitar,  concorrentes: Marichal, Pizzorno, Bouza.  Não marcou mais porque minha viagem era curta. Foi assim que o Uruguai entrou na minha cabeça, uns anos atrás e nunca mais saiu. Alois Kracher tinha a mesma qualidade humana. Infelizmente o tempo foi implacável, mas os vinhos botritizados da região de Neusiedlersee sempre deverão a ele um impulso único e um lugar no mapa.

Que bicho me bebeu

In Idéias gerais on April 8, 2008 at 11:31 pm

O ótimo blog amigo “Que bicho me mordeu” (link ao lado)  narra a triste história do vinho aberto tarde demais. É um problema, mas ainda prefiro perder um vinho assim que de maneira perfunctória, bebendo com descaso. O vinho guardado além da época é pelo menos uma prova de carinho, e o vinho merece. Mas o risco da garrafa morta, ou contaminada (e isto não tem a ver com tempo, mas com o acaso e capricho do TCA das rolhas, dentre outros probleminhas) é algo que torna a aventura do desarrolho mais fascinante. Eppur se bebe.

linear

In Idéias gerais on April 6, 2008 at 3:03 pm

Sempre me lembro de uma frase de Buñuel: “gosto da regularidade e dos lugares que conheço”. Tenho feito uma caminhada diária que me enche de alegria, 20 minutos a pé (25 em dias com algum tipo de problema, chuva, preguiça, dor na coluna), o mesmo trajeto, mas cada dia um aspecto do drama humano (he! he!) ou da vida urbana (ou de ambos) mostra sua cara, seja no lado claro ou no escuro.

Alguns:

Os irritantes lavadores de passeio com mangueira, os senhores e senhoras com cachorrinhos idênticos a eles (Higienópolis é um bairro de Buenos Aires, até com praça deste nome), os mendigos super borderline que vivem na estação de metro, que também demarca o final do mundo “civilizado” e o começo da terra incógnita (e fascinante) do centrão, cheio de predinhos com nomes bonitos e demodés ( Edifício Argentina, Edifício Ester, Paysandú, coisas assim, pré-brega no furor galicista dos Château disto e daquilo, Village de Montaigne, estes simulacra, você olha aquela pilha de lego com um telhadinho afrancesado, sem rir e sem chorar, apenas perplexo) e com lindo estilo decô, soltando pedaços. Só uma cidade monstruosa como São Paulo (no sentido pejorativo) abandonaria um centro tão bonito à própria decrepitude. Quem dúvida que aquele lugar é lindo, que pegue o livro de fotos de Lévi-Strauss ( o antropólogo, não a calça jeans) e veja uma capital elegante, educada e perdida (irremediavelmente?) no passado.

Mas a caminhada. Há o momento exato de cruzar cada rua para evitar o farol fechado e etc. Até os tempos são diferentes, como climats, o início em ambiente de bairro residencial arborizado, o meio como uma passagem por uma espécie de Botafogo no Rio dos anos 60 e o final na metrópole anônima e deteriorada, como uma Nova York dos anos 80. Uma forma de partitura, uma tessitura divertida e igual/diferente. Até mesmo a ordem de execução das músicas no ipod (Laurie Anderson, Nico Muhly, Jon Brion, Correa de Arauxo, Buxtehude, …) vai formando um padrão, padronagem mesmo, elas vão encontrando seu momento certo e sua organização. Um fone de ouvido é como o ponteiro de um relógio.

Eu que sempre brinco dizendo à Frederica que ela é natureza e paisagem, virei também paisagem, cenário de um traçado na cidade, que pode ser desenhado como um gráfico. Cada um tem as galerias de Paris que merece.

[tinha uma imagem perfeita para acompanhar este post.  Um tecido de Ray Eames. Mas wordpress sucks, mudaram tudo prá pior e depois de passar meia hora tentando uploadar a foto, desisto]

Uma frase

In Idéias gerais on April 4, 2008 at 4:28 am

Saiu nova edição do What’s up do Didu Russo http://www.didu.com.br/WhatsUp.aspx?Secao=3&Artigo=27

 O homem está um rolo compressor, editando o site, a newsletter e gravando seu programa de tv que estréia neste domingo, nunca mais o vinho e os domingos serão os mesmos.

Das ótimas entrevistas dele na parte chamada Actor’s studio, pincei esta bela lição de humanismo dada por um dos mais elegantes (no sentido amplo do termo) vinhateiros que conheci, Mastroberardino:

DIDÚ: Vecchio o Nuovo Mondo?

Mastroberardino – Ciò che oggi appare nuovo domani naturalmente è destinato ad invecchiare, dunque semplicemente Mondo, evitando conflitti ideologici e dando il giusto valore ai contributi di ciascuno.

O Hall da fama

In Idéias gerais on April 1, 2008 at 11:46 pm

Sem nada para fazer vejo a lista de personalidades do ano da história da Decanter, ei-las:

1984 Serge Hochar

1985 Casal Mentzelopoulos

1986 Marchese Piero Antinori

1987 Alexis Lichine

1988 Max Schubert

1989 Robert Mondavi

1990 Emile Peynaud

1991 José Ignacio Domecq

1992 André Tchelistcheff

1993 Michael Broadbent

1994 May-Eliane de Lencquesaing

1995 Hugh Johnson OBE

1996 Georg Riedel

1997 Len Evans

1998 Angelo Gaja

1999 Jancis Robinson MW OBE

2000 Paul Draper

2001 Jean-Claude Rouzaud

2002 Miguel Torres

2003 Jean-Michel Cazes

2004 Brian Coser

2005 Ernst Loosen

2006 Marcel Guigal

2007 Anthony Barton

2008 Christian Moeuix

Encontro de titãs

In Idéias gerais on April 1, 2008 at 9:09 pm

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[foto Julia Harding]

Eis a foto do dia, batida por Julia Harding, em Bordeaux, onde andam todos avaliando a criticada safra de 2007, que tem tudo para ser um fiasco. Café da manhã histórico reuniu os dois lados do Atlântico,  o relato de Jancis pode ser lido aqui:

http://www.jancisrobinson.com/articles/20080331

Grande novidade

In Idéias gerais on April 1, 2008 at 12:00 am

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Esta notícia realmente vai abalar o mundo dos vinhos. O importante Paul Pontallier (na primeira foto, em trajes cerimoniais de degustação), diretor do Château Margaux, anunciou hoje os planos da casa para os anos vindouros.

Vão erradicar totalmente seus vinhedos de Cabernet Sauvignon e plantar exclusivamente Grenache, pois devido ao aquecimento global ele julga que, brevemente, Bordeaux terá um clima mais parecido ao do Languedoc e Rhône sul.

Também disse que a tradicional vinícola está comprando 1000 hectares nos Andes equatorianos onde pretende desenvolver um projeto de um Premier Cru baseado em suco de manga fermentado usando leveduras bordelesas. Segundo ele: “o terroir equatoriano, de terra roxa muito fértil, é perfeito para a máxima expressão da manga, com traços de fruta tropical e intensa mineralidade”.

 O projeto é todo biodinâmico, com consultoria de Michel Rolland, que se tornou apóstolo da antroposofia depois de um encontro secreto com Madame Bize-Leroy.

O primeiro vinho equatoriano, apelidado carinhosamente de Château Mangô, aparecerá no mercado em 2016, depois de um estágio prolongado em tonéis de pau brasil e jacarandá.

Glupt! mostra em primeira mão o estudo para o rótulo (foto 2) e também uma exclusiva (foto 3) das impressionantes videiras enxertadas com mangueira, com mais de quarenta anos de idade e baixo rendimento.

Se tudo der certo haverá um Ice Wine de manga feito a 4 mil metros de altura, lá onde el condor pasa. Se tudo der errado, será vendido como sorbet.

A assessora de imprensa do grupo, Ecilda Paullier, não respondeu aos telefonemas e emails do Glupt! Uma loucura!