luizhorta

Archive for March, 2008

Chablis

In Idéias gerais on March 30, 2008 at 3:24 am

1977_providence.jpgAproveitei o sabadão para assistir (milésima vez? Por aí) Providence de Alain Resnais, um dos meus dez filmes favoritos. E como sempre falhei em descobrir qual Chablis o personagem principal bebe. Clive Langham (John Gielgud) toma porres memoráveis, belas garrafas com aquele típico lacre amarelo. Mas não dá para saber do que, um Chablis 1975….set and game to father. Quem sabe?

Fresta de luz

In Idéias gerais on March 30, 2008 at 2:17 am

Bebe daqui e dali, de repente aparece um descanso líquido para o paladar, um frescor simples e admirável, aroma de abacaxi sem exagero, muito típico. Corre a olhar o rótulo, o que será? Viura? Alvarinho? No sir!: Dal Pizzol Chardonnay…Coisas da vida vinícola, muitas vezes o prazer é ligeiro e está ao alcance da mão. Para que complicar?

Alsacianos

In Idéias gerais on March 29, 2008 at 3:45 am

Aqui o bate-papo que tive com os Zind-Humbrecht, produtores de grandes vinhos da Alsácia, publicado no Paladar da última 5a.feira. Amanhã postarei as notas de degustação de cada vinho.

http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup146643,0.htm

Surpresa

In Idéias gerais on March 28, 2008 at 2:01 pm

wine-estela_01.jpgOntem na comemoração de 1 ano da importadora Vinci, a degustação de diversos vinhos do seu catalógo. Muitos tops italianos, franceses, etc. Mas o que me chamou a atenção, me fez voltar, provar de novo e anotar foi um inesperado vinho argentino, feito com a menosprezada uva Bonarda, que foi durante décadas a variedade comum de vinhos vagabundos.

Tratada direitinho, com rendimento controlado e todos os salamaleques, pode dar um vinho excelente como este, o mesmo que a Cariñena tem feito na Catalunha e Languedoc.

Pois o La Posta, Estela Armando Vineyard, de pés francos (!!!), colhido a mão, vinhedo com 40 anos de idade, 11 meses em carvalho (francês e americano), sem filtrar nem clarificar, é um tesouro. Guloso, amigável, muita fruta no nariz, violetas confeitadas (já comeram isto? florzinhas cobertas de açúcar), boa acidez na boca, mas sem aquele gosto de tutti-frutti e chicletes da Bonarda mal feita. Muito interessante, leve picante, potente sem ser alcóolico e um excelente companheiro para comida.

E o preço deste vinhaço para todo dia? Meros 38 reais e 33 centavos.

Das maravilhas da incerteza

In Idéias gerais on March 25, 2008 at 7:49 pm

Pinçado do blog do sempre ótimo Andrew Jefford: “There is very little agreement as to how to make the best Calvados, which I take to be an excellent sign”.

Back to basics

In Idéias gerais on March 25, 2008 at 5:59 pm

Suspiro profundo e mão na massa. Tanta coisa para escrever, nem sei por onde começar. Acho que pelo almoço no D.O.M. com os catalães do Alicia e os bons vinhos sul americanos que consumimos entonces. Por aí recomeçarei…

Pequeno descanso

In Idéias gerais on March 20, 2008 at 2:52 am

hare_beating_tabor.jpgO Glupt! tira uns dias de férias. Deixa a vocês leitores uma frase de São Paulo na sua carta aos Tessalonicenses (terra aliás de bons vinhos): Semper gaudete, mantenham-se sempre alegres. Bom feriado e boa Páscoa.

Dois bons brasileiros

In Idéias gerais on March 16, 2008 at 9:33 pm

Não julgo vinhos pela procedência, julgo pela qualidade.

Tomei hoje, num jantar delicioso no Brasil a Gosto, com os visitantes catalães, dois belos vinhos brasileiros. O Gewurztramminer da Valduga (não anotei o ano) e o Dezem Merlot 2004, um belo vinho paranaense, com corpo elegante, boa acidez, um toque animal no nariz, saboroso, não enjoativo e nem excessivamente moderno como costumam ser os merlots nacionais, com uso inteligente de madeira e sem aquele finalzinho amargo (que eu atribuia à madeira, mas segundo Fernando Deicas da Juanicó é fruto das sementes não completamente amadurecidas), tão comum nos vinhos locais.

Bravo para os dois, competitivos, gostosos e de bom preço. 

Considerações dominicais

In Idéias gerais on March 16, 2008 at 12:30 pm

O que realmente incomoda nos vinhos não é uma tal globalização abstrata. É o risco da perfeição técnica. Elaborarei depois, nos próximos dias.

Partout et nulle part

In Idéias gerais on March 16, 2008 at 1:03 am

merleau-ponty2.jpgUm tempo atrás contei aqui no blog minha visita acidental ao cemitério de Père Lachaise e como descobri, tropeçando em galhos secos e túmulos abandonados o da minha matriz de pensamento, Maurice Merleau-Ponty. O plano secundário virou desde aquela data estar lá no centenário do mestre e levar uma florzinha: um convite para ir ao Languedoc conspirou a favor e um problemita derrotou o projeto, e cá estou, não lá como queria.

Mesmo assim, conto que eu quase fiz uma tese sobre ele, cargillions de anos atrás, e deste quase ficou um resíduo que nunca vai me largar. Hoje mesmo, batendo papo com Toni Massanés do Alicia, de repente, me peguei sendo muito pontyano, defendendo a idéia de que é possível sim o que Massanés quer, construir uma lingua franca que dê conta das sensações sem as ambiguidades do individualismo (ele quer encontrar um ponto em que as descrições de vinhos sejam legíveis por todo mundo, o meu amargo, seja o teu amargo…), uma construção de essencias a posteriori, ligeira infidelidade ao projeto da fenomenologia, mas e daí? Eu tentava explicar como via entusiasmado a tentativa, mas sabia que ela seria sempre tangenciada e delineada por esta saraivada de tangentes, sem nunca de fato conseguir resultado inequívoco, quando outras pessoas chegaram e, felizmente, passamos a tomar um vinho e não tentar resolver impasses do mundo das idéias.

Nisto entendi que esta conversa com o Toni, meia hora antes do almoço de hoje acontecer, foi a minha homenagem a Merleau-Ponty, era o vasinho de flores que eu punha para ele no seu centenário, mais um capítulo na minha relação esquiva com o seu pensamento, parte daquela “brouille qui n’a pas eu lieu, notre amitié”.

Fica o post in memoriam Maurice Merleau-Ponty 1908-1961

Defeitinhos

In Idéias gerais on March 15, 2008 at 1:47 am

De vez em quando me lembro com urgência de algo que preciso escrever. Tomo uma nota, mental ou física, e esqueço, claro. Faz uns quatro anos estou me devendo comentar uma degustação que foi chave para entender os vinhos. Conduzida por Marie-Louise Banyols, da Revue du Vin de France, em Vic, era sobre “Pequenos defeitos que são virtudes”. Estava tudo lá, o ponto de bretanomices num, o açucar residual ligeiramente desequilibrado noutro, um toque oxidativo num terceiro, um percentual de uvas com botritis num quarto. Foi a primeira vez também que tomei um vinho de Nicolas Joly e um champagne de Sélosse, Substance. Era uma epifania, e eu não sabia. Vou recuperar estas notas e escrever sobre isto.

A crítica da crítica

In Idéias gerais on March 14, 2008 at 11:20 am

Respondendo ao Eduardo: confiar na opinião dos críticos é já uma eleição de um gosto semelhante. Não é só o Parker que determina o que é bom, o gosto “popular” determina de alguma maneira o Parker como um estabelecedor de modos e maneiras. Ou como disse uma ensaísta cujo nome não me lembro agora, mas prometo dizer quando estiver perto do livro: a confiabilidade no caso dele (RP) já é um componente epistemológico.

Traduzindo em língua de gente, escolhemos nossos críticos por afinidades, da mesma forma que vinhos. Eu me sinto confortável com os ingleses, prefiro em geral o que gostam, Hugh Johnson, Jancis e tal. Mas o Parker tem virtudes, inclusive na sua equipe há um dos maiores conhecedores de vinhos alemães e austríacos, David Schildknecht.

Não acho que vinho seja só o que já conhecemos, a ampliação do gosto é um desafio e uma delícia, privilégio do espírito humano, provar o diferente, educar os sentidos, ampliar as sensações. Mas nada contra os “garantidos”, os nossos vinhos de subsistência, o “run for cover”, as certezas que nos consolam.

Negócio basicamente é provar e repetir, testar e eleger. Meu melhor vinho da vida sempre pode ser decepcionante sob outras condições, noutros momentos, e um vinho que achei ruim pode reaparecer incrível noutra volta do parafuso.

Vinho e comida, superada a esfera da nutrição e necessidade, entram no mundo do gosto pessoal, e as verdades pétreas devem ir para o espaço.

gatos…

In Idéias gerais on March 13, 2008 at 8:58 am

vinci.jpgFrederica sentou no teclado para me impedir a visão da tela (quem tem um gato entende do que estou falando) e escreveu a seguinte mensagem: 07700356Ç.HNJU . Se alguém souber o que quer dizer, agradeço :-)

Seja também um Jay-jay

In Idéias gerais on March 12, 2008 at 3:36 pm

mini_001.jpggoat.jpgO notório homem de Parker para as quebradas do mundaréu, “doutor” Jay Jay Miller, pontuou outra vez os vinhos espanhóis. A graça nesta oportunidade é que diversos vinhos nem são conhecidos na Espanha! produzidos diretamente para o mercado americano.

Eu acho ótimo, quanto menos eles quiserem os bons vinhos espanhóis, mais sobrarão para quem gosta dos bons.

É neste espírito sempre conciliador e carinhoso, que o Glupt! fornece aos seus leitores uma chance única: seja voce também um Jay-jay! Basta imprimir a máscara, cortar no lugar da boca e sair dando 100 pontos a toda garrafa de álcool que encontrar. Participe!

A foto do “doutor” Miller é meramente ilustrativa, pode ser que o uso da máscara não te faça parecido com ele, não é nossa responsabilidade no caso (sorte sua! Tente uma fantasia de Jabba the hutt como alternativa).  

Uruguai em movimento

In Idéias gerais on March 11, 2008 at 7:49 pm

Eu ainda estou decifrando minhas anotações e o Didú já veio com o relato prontinho, tem tudo, perfil das vinícolas, vinhos favoritos e vídeos divertidos. Está na edição de número 33 do What’s up, que pode ser lida aqui : http://didu.com.br/WhatsUp.aspx?Secao=3&Artigo=24

E quem visitar o site pode aproveitar e se inscrever para receber os avisos de atualização e os próximos números da newsletter mais influente da vinosfera (o que tinha de gente no Uruguai que comentava sobre o What’s up não era brincadeira. O Didú é tão popular no país vizinho quanto aqui, a gravata borboleta mais viajada do cone sul!).

Olha o furo do Glupt!

In Idéias gerais on March 11, 2008 at 9:49 am

alion.jpgGraças ao Rodrigo Mainardi ficamos sabendo que Bob Dylan consumiu (com a banda, espero…) 3 magnuns de Alión 2003, o irmão mais novo do Vega Sicilia.  Quatro litros e meio deste caldo soberbo de Ribera del Duero, eu sabia que o Zimmerman não ia nos decepcionar.

o que vem por aí

In Idéias gerais on March 11, 2008 at 3:48 am

O ano começou fervendo, nos dois sentidos, porque está um calor! Mas nesta semana e na próxima tem, dentre outras muitas coisas, apresentação do Dal Pizzol Touriga, dos bordeaux do Château Caronne St Gemme, os portugas de Herdade do Perdigão e os italo-brasucas de Noemia D’Amico, e o encontro dos vinhos Miolo com a comida do La Casserole. E outras coisinhas mais, e ainda estou meio convalescente mas cuspindo vai.

Um pouco de ritual convém

In Idéias gerais on March 10, 2008 at 8:11 am

Eu sou sempre, alto e bom som, cético das harmonizações perfeitas. Não vejo nada demais em arriscar, experimentar e até dar com os burros n’água. Acontece com todo mundo e o tempo todo, se não fosse pelo atrevimento, ninguém jamais teria provado coisas que acabaram dando certo e ainda estaríamos comendo a caça em estado de natureza. A gastronomia, como uma espécie de ciência e arte, veio das inovações.

Também acredito, com as costas quentes garantidas por Hugh Johnson, nas suas memórias, que antes da facilidade de comunicação, transporte e mercados globais, as pessoas bebiam o que tinham e comiam o que estava a mão. O luxo de combinar um vinho tal com a comida xis, é um privilégio da nossa época. Então não sou dogmático nestas coisas.

Mas acho que tem que ter respeito pelo trabalho anonimo e quase religioso, que fez o melhor possível para produzir um grande vinho, decadas atrás, guardou este produto humano numa garrafa, esperando que ele fosse bebido no momento certo, pelas pessoas certas com a comida adequada. Abrir um grande vinho não é um exercício de esnobismo, é uma homenagem ao intenso embate contra a natureza e contra a passagem do tempo que o vinho significou. Muitas das pessoas envolvidas na produção de uma única garrafa já desapareceram, beber um vinho envelhecido e evoluído é beber história, memória, um ato de civilização.

Por isto me irrita muito saber que de maneira perfunctória um vinho destes é desperdiçado de maneira iconoclasta, superficial, inconsequente. É uma decepção e equivale na minha escala de valores a desrespeitar uma obra igualmente sem autores e também vitoriosa contra o tempo, como uma Catedral Gótica. É como destruir um pedacinho do patrimônio comum da humanidade.

Pensemos bem nisto, agora que temos acesso a todo tipo de vinhos: com uma comida ligeira de fim-de-semana, temos uma lista imensa de opções, rosados frutados, brancos ligeiros, espumantes deliciosos. Não tiremos a rolha de um vinho adormecido que espera seu momento certo só para beber alguma coisa. Não violemos um dos últimos espaços de refinamento que nos resta na bárbarie. Saibamos esperar, porque aquela garrafa como uma mensagem de náufrago mandada através da história e que vem trazida pelas ondas até nós merece cair em campo fértil. Senão pobre do produtor que  fechou seu vinho trinta anos atrás terá sua memoria rasgada, suas poucas sementes terão caido sobre a pedra e não vicejarão. Beber um grande vinho é conversar com o passado, celebrá-lo. Todo vinho assim é emocionante, mesmo que já não esteja no auge, porque é impossível não pensar em tudo que se passou desde seu engarrafamento.

No outro dia, quando abrimos os Bosconia e Tondonia 1981, tivemos intensa celebração, felicidade, ver aqueles líquidos que assistiram tanta coisa, vindos de uvas colhidas num campo distante da Rioja, terminarem na nossa frente, com dignidade e apreciação. Aqueles vinhos tiveram o que os gregos chamam de um fim glorioso, digno de sua existência e das pessoas que os fizeram, celebrados com respeito e prazer pelos que compartilharam o ato de bebe-los.

Mas nem sempre é assim. Tenho assistido cenas feias, um Lafite matado numa mesa de churrascaria muito antes de cumprir seu caminho, e deixado lá pela metade, por exemplo. Pensem nisto. Estou um pouco desiludido e amargurado hoje. Comer e beber é muito mais que ticar nomes num caderninho, é manter integra nossa condição de seres sensíveis e capazes de transmitir um mínimo de leveza, finura e sensibilidade. Se não fôr assim, qual o sentido?

VS

In Idéias gerais on March 9, 2008 at 2:26 am

vegas.jpgA Mistral anuncia o calendário dos seus grandes jantares. Tem coisas muito atraentes, Gaia Gaja, filha de Angelo Gaja, por exemplo e Alvaro Palacios, um dos inventores do Priorato contemporaneo ( e que nunca veio ao Brasil). Mas o top mesmo, o que vai ser marcado em vermelho gritando na agenda, é Pablo Alvarez, dono do Vega Sicilia.
Almocei com ele uns anos atrás, em Tordesillas, e visitamos sua vinícola em Toro, de onde sai o Pintia. Vale contar esta história outra vez, foi publicada na Gula, na época. Contarei. Mas por enquanto só o registro de que julho tem uma verdadeira visita real, Vega Sicilia é um nome que se pronuncia com reverencia na Espanha e no mundo.

Nova entrega de prêmios Glupt!

In Idéias gerais on March 8, 2008 at 8:15 pm

glupt-sao-louenco.jpgimg_2325_3_1.jpgTroféu Frederica para o produtor revelação do ano (Domaine Rimbert) e para lugar agradável para beber vinhos (Praça São Lourenço). Nas fotos o almoço festivo descrito em post anterior e os felizes contemplados, Geoffroy de Savye de la Croix e João Paulo Gentile.

[fotos do Pagliari, editadas por mim para me "remover" do grupo]

Os porquinhos

In Idéias gerais on March 8, 2008 at 9:17 am

image001.jpgComo embaixador de Glotonia para São Paulo tenho o prazer de comunicar que chegam às livrarias as esperadas mémorias escritas a 4 patas pelos dois senhores David de Jorge e Hasier Etxberria, tradução deste vosso criado. Espero que tenha o sucesso merecido. O livro é muito divertido.

A carne (de vez em quando) é fraca

In Idéias gerais on March 8, 2008 at 4:42 am

toothache1.jpg

Para que não se pense que o Glupt! só vive de nababescos acontecimentos e grandes viagens, o blog ia viajar para Limoux, para testemuhar um acontecimento especial, o leilão de vinhos anual, como o dos Hospices de Beaune, em que os produtores do famoso Chardonnay da região doam suas melhores barricas e cuja renda é destinada à recuperação do patrimônio arquitetonico do Languedoc. Cada ano o leilão é presidido por um chef 3 estrelas, e neste serão Juan Mari Arzak e sua filha Elena os leiloeiros. Foi com tristeza que precisei cancelar a viagem por motivos ósseos e musculares, coisas do frágil corpinho que todos possuímos, mesmo julgando que somos indestrutíveis. Que fazer? Ano que vem, talvez…Mas tentarei dar um relato distante da coisa, porque é um evento bonito chamado Toques et Clocher.

Igualmente, pelo mesmo motivo minúsculo e doloroso, não poderei acompanhar o querido amigo Toni Massanés a Manaus. Tempo curto de chá e simpatia.

Perfeição

In Idéias gerais on March 8, 2008 at 3:15 am

Um almoço longamente adiado, acho que desde setembro passado, conseguiu acontecer hoje, uma reunião de amigos em torno de bons vinhos. Começamos com duas surpresas, garrafas trazidas pelo Didú Russo da nossa recente viagem ao sul, cobertos para não serem identificados. O surpreendente branco de uvas tintas, Pinot Noir com um pingo de Chardonnay, da uruguaia Marichal. Criação do talentoso e entusiasmado Juan Andrés Marichal, um dos jovens a ser vigiado no que faz. E o “jerez” do Viñedo de los Vientos do Pablo Falabrino, inusitado corte de Chardonnay, Viognier e Trebbiano, em que aconteceu a “flor”, aquela película de restos de levedura, que dá ao líquido um cárater único. Como bons uruguaios os vinhos tinham notável acidez e nada que os identificasse com o padrão monótono que se atribui, falsa ou verdadeiramente, a muitos vinhos do Novo Mundo.

Passamos então para um Riesling alsaciano delicioso, cheio de tipicidade e elegância. O Spielmann Grand Cru Kanzlerberg 2000, muito seco e equilibrado, diferente da fama dos rieslings alsacianos, tidos como pesados e alcóolicos pelos mais germanistas.

Veio depois a fase Rioja da degustação. O Remelluri branco 2003, levado pelo José Luiz Pagliari, vinho único, feito de 7 variedades e um vinho cult na Espanha, produção mínima, quase para consumo da própria vinícola (que produz alguns de meus Riojas favoritos, numa das propriedades mais bonitas que já visitei, dentro da Rioja Alavesa). Um portento, cheio de nuances, que pode ser cheirado por horas e irá surpreender cada vez. O Bosconia Gran Reserva 1981, que dispensa comentários, afinal é um dos grandes vinhos de guarda da Espanha, e nos seus 26 anos (aberto e servido pelo Ramatis Russo, que também é de 1981!) está em pleno vigor, acidez impecável, evoluído e complexo, um Borgonha feito na Rioja, com a curiosidade de que originalmente o vinhedo se chamava Borgoña e não Bosconia, justamente por esta semelhança de estilo. Para comparar foi divertido abrir um verdadeiro Borgonha, uma criança perto do espanhol, mas prometedor, o Savigny les Beaunes de Catherine e Claude Marechal, 2005. Uma delícia de fruta e frescor, com aquela potencia oculta dos bons Borgonhas, uma estrutura que está lá mas que não se vê, deixando entrever somente o prazer de bebe-lo.

O cume de tudo isto, se ainda era possível subir mais, foi o Tondonia Gran Reserva Blanco 1981. Indescrítivel. Seria a garrafa que eu pegaria correndo se tivesse que escolher uma sómente (presentão de aniversário de Ciro Lilla, que guardei para a ocasião). Sou suspeito para falar dos vinhos de Lopez de Heredia, porque talvez sejam os meus favoritos no mundo todo.

O Praça São Lourenço, a quem entreguei o prêmio Glupt! de lugar amigável para beber vinhos, cumprindo seu papel à perfeição, taças adequadas, os dois sommeliers treinados, a comida caprichada (um cordeiro grelhado no ponto exato, contraponto certeiro para os vinhos e mil outras coisinhas delicadas, pães e comidinhas) e o lago e fonte agregando um ar fresco e prazeiroso a esta tarde quente.

Como sempre pode melhorar, dois Sauternes, fruto de uma coincidência, eu tinha comprado curioso uma garrafa de um Sauternes biodinâmico na Lavinia de Paris. E agora o Geoffroy de Savye, da Delacroix, passa a importar estes vinhos, então eu levei o meu 98 e ele um 2000 e pudemos comparar, ambos ainda com longa estrada pela frente, e aquela “sauternidade” que eu aproximo de cheiro de cola (é um elogio, embora eu não seja chegado em cheirar cola…) e à austeridade, contrariamente à botritis exuberante dos Tokajs. Perfeitos. São de Rousset-Peyraguey. Aproveitei e entreguei a ele o prêmio Glupt! pelo produtor revelação do ano: Domaine Rimbert.

E não terminou, nesta altura estavámos voltando aos primeiros, indo e vindo, comparando, nenhum vinho inadequado, todos se comportaram muito bem. Nosso anfitrião, Jonny Gentile, que faz jus ao nome, trouxe um Porto branco Grahm’s, grappa e charutos trazidos de Cuba. Abri uma exceção e fumei um Hoyos de Monterrey, afinal era a comemoração de algo, da amizade, da leveza, do epicurismo em tempos dificeis e da entrega de dois prêmos do blog.

Que dia!

A pergunta que não quer calar

In Idéias gerais on March 7, 2008 at 8:49 am

Que vinhos terá Bob Dylan tomado em São Paulo?

Frase desviada para cá

In Idéias gerais on March 6, 2008 at 10:37 am

O Paladar de hoje está um primor (e não participei de nada, posso elogiar despudoradamente!) tratando do boom gastronômico na Itália. Só discordo de que a Itália seja a nova Espanha, a Espanha é a Espanha né?(sou que nem torcedor de futebol, fanático mesmo). Mas a Itália está sendo justamente hypada na hora certa. E no meio do caderno pesquei um parágrafo do texto de Massimo Bottura, que serve para vinhos, música, vida, uma coisa linda:

“Você, brinque com sua comida. Vire-a do avesso e de cabeça para baixo. Transforme o quente em frio e o áspero em macio. Cheire a comida. Cutuque-a. Prove-a na língua. Coma para evocar lembranças, para compartilhar, para se divertir. Satisfaça o coração e a alma que o estômago vem atrás. Alimentação não é matemática, é emoção”.

Dito! Não nos levemos tanto a sério, vamos brincar com os vinhos também!  

Bom de copo

In Idéias gerais on March 6, 2008 at 9:21 am

plinyelder.jpgNão tem para Parker, Johnson, Broadbent ou Robinson, o cara que bebeu de tudo mesmo foi Plínio, o velho. Não tem um relato sobre uma uva, uma passagem histórica, uma comidinha especial, banquete, tertúlia, convescote ou libação em que ele não apareça e dê palpites. Pode conferir, o bom e velho Plínio estava em todas. Era o verdadeiro arroz de festa do século 1 e tanto fez que conseguiu morrer numa erupção do Vesúvio, na certa com um cálice de Moscatel na mão.

Uva sulista

In Idéias gerais on March 5, 2008 at 9:47 pm

Há um debate interessante sobre a uva Torrontés no site de JR. Não vou repetí-lo aqui, mas em resumo a conclusão é bacana, esta é realmente uma uva argentina, que não tem similar em nenhuma parte. Aconteceu do cruzamento natural da Criolla Chica com a Moscatel de Alexandria. A de Rioja (Rioja argentina, não espanhola) é a mais expressiva e aromática, devido ao alto teor de linalol que lhe dá o aroma de pétalas de flores, de rosas brancas. Eu gosto muito de Torrontés, tomei um no Uruguai, Rio de los Pajaros Pisano, muito bom, além dos conhecidos Argentina afora. Aliás Daniel Pisano contou a história de como arranjou a uva, contrabandeando galhinhos e dizendo que eram para assar churrasco…

balanço de estrelas

In Idéias gerais on March 5, 2008 at 6:27 am

robuchon_et_ducasse.jpg

Com a aparição do Michelin França termina a copa do mundo estelar para 2008 e o saldo é Robuchon 18 contra 15 de Ducasse. O excêntrico jesuíta Joel Robuchon (quem o conheceu aqui uns 5 anos atrás, na Escola do Laurent, há de se lembrar dos modos extremamente gentis, dos gestos contidos e sem veemencia, da roupa negra e das pernas em x, quase um missionário, que não estaria deslocado catequizando nas Filipinas) passa assim a ser o chef com mais estrelas no mundo inteiro, nesta temporada.

Clica daqui e dali

In Idéias gerais on March 4, 2008 at 5:43 am

Anotem este nome, os que gostam de música: Nico Muhly. Nome estranho, personagem único. Comecei a ler o relato num blog de um sujeito que mora em Chinatown e adora cozinhar, que ama offal, miúdos, e que fez uma refeição inesquecível no St John de Londres. Então ele discute o badalado artigo recente do NY Times, se é possível um “date” de uma vegetariana com um carnívoro. Daí, pelos milagres do hipertexto, acabei ouvindo a música do cidadão. Ele compõe. E a coisa grudou na minha cabeça, tem 2 dias não consigo escutar outra coisa, música religiosa, bem fincada em Tallis, Byrd, música coral inglesa, mas lida pelo século 21, com muito talento. Sou fascinado por arte religiosa feita pela contemporaneidade, coisa complicada de dar certo, mas que quando acerta é atordoante. Lembrei da capela de Barceló dentro da Catedral de Palma de Mallorca, e da soturna música de Arvo Paart e Gorecki. Mas eles ainda estavam ensombrecidos pelo século xx e pelos holocaustos continuados. Nico Muhly não, parece um colegial descabelado indie, que gosta de comprar ossos e aparas para fazer caldo e enquanto a panela ferve e referve, produz uma missa, evidentemente chamada Bright Mass, tão bonita que virou repertório da Saint Thomas Church da Quinta Avenida. A música religiosa libertada do ascetismo, feliz, virada para outro tempo. E o “monstrinho” tem apenas 26 anos…Um googleada e se acha o site e vários exemplos musicais, o cd está repetindo tanto no meu ipod que ameaça os neurónios que me sobram, e que estavam dedicados só ao vinho. Que todos os miúdos (ele cita as mollejas de porco como favoritas) emprestem a proteína para tanta criatividade.   

Glupt! responde

In Idéias gerais on March 3, 2008 at 6:21 pm

fish-typewriter.jpg

Aos leitores que pediram informação sobre onde achar o Cahors. O Saraiva da Vitis Vinifera informa que, por enquanto, aqui em São Paulo, no Varanda, Empório São Paulo, Empório Dinis e Cantina Materello. E pelo site www.vitisvinifera.com.br O tempo de guarda, tomamos outro Cahors no mesmo dia, de 1998, e estava no auge. Então para o 2004 eu diria mais uns 5 a 10 anos brincando.

À Sofia, minha querida amiga, que oferece a casa (linda) para a entrega dos prêmios Glupt!: este ano vai ser low profile mesmo, porque o titular não para de viajar e a Frederica não gosta de festas. Mas combinado para o Glupt! 2008.

Alexandra Forbes, denodada e sumida companheira de almoços, já coloquei o seu blog na lista de amigos.

Perde e ganha de estrelas

In Idéias gerais on March 3, 2008 at 8:59 am

nyer.jpgSaiu agora, as 5 da matina aqui, a lista dos estrelados e rebaixados do Michelin 08 da França. Deixo para os especialistas comentarem, não sei assim tanto de restaurantes franceses para meter o nariz. Só vigiei os conhecidos e pareceram todos no lugar. E um cartoon divertido da New Yorker para começar a semana.

Pausa Malbec

In Idéias gerais on March 2, 2008 at 4:47 am

vinho_290.jpg

Antes de mergulhar no longo relato sobre o Uruguai preciso contar o que me aconteceu ontem. Tomei um Malbec de perder o rumo de tão bom. Escuro como uma noite sem estrelas, potente mas muito elegante, cada cheirada um prazer: ameixas pretas, alcaçuz, toque de rapadura, couro. E algo que venho encontrando em alguns vinhos: umami, aquele quinto sabor, mastigável, como se fosse uma batata assada. Na boca é voluptuoso, taninos presentes mas agradáveis e muito finos, acidez perfeita sem nada de tártarico adicionado. Deixa um retrogosto de frutas maduras como o de um destes Douro modernos, Porto seco, mas com meros 13 de álcool (tempos estes que vivemos, em que 13 volumes de álcool podem ser considerados moderados). Um belo vinho de 2004, ainda com vida longa e muita felicidade para dar.

Agora o detalhe: era francês, de Cahors, honrando a tradição dos vins negres da região, famosos desde os tempos de Eleanor de Aquitania e que só perderam o prestígio quando Bordeaux atravessou comercialmente no caminho. E custa a bagatela de 58 reais! Mais barato que a grossa maioria dos tops argentinos da mesma uva. Um vinho destes com um pato na panela do Jacquin seria de uivar para a lua.

Tem alguma coisa muito errada na tabela de preços da Argentina, e olha que sou (1) entusiasta do país vizinho (2) apreciador de vários de seus vinhos.

A importadora é a Vitis Vinifera do Rio, depois dou os dados de contato e falo nos outros vinhos, mas este Cahors…Château de la Poujade 2004, valha-me!

p.s: a Vitis Vinifera funciona no seguinte site:

http://vitisvinifera.academiadovinho.com.br/