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Recebi um email de Telmo Rodriguez que me deixou contente, ainda repercutindo a resenha que publiquei no Paladar, que bateu em Glotonia dos porquinhos e foi parar na mão do vinicultor e também vertido para castelhano no El Mundo. As voltas que os textos dão.
O Telmo para quem não sabe é um recuperador de sabores antigos. Viaja pela Espanha atrás de vinhedos meio abandonados, pacientemente recupera o que é possível, procura saber como o vinho era feito na região e faz alguns inesquecíveis líquidos, como o Molino Real. Ele conta que está trabalhando em um pequeno vinhedo de 2 hectares na Rioja, usando co-plantação, tentando reviver como era um Rioja em outras eras.
Pois foi este sujeito que o livro do Nossiter lista como uma espécie de enólogo sem raízes. Entendo, há preconceito, o Telmo tem físico de poeta tísico e longa cabeleira de nouveau-philosophe, parece mais Bernard Henri-Lévy que um vinhateiro, é franzino, afável e simpático. Mas basta olhar bem suas mãos e ver que ele é do campo. Cresceu em Remelluri, comprada pelo pai, depois foi estudar em Bordeaux, dormia na cantina vigiando o processo, trabalhou duro, refinou o conhecimento.
Na sua rápida passagem por aqui, uns anos atrás, numa edição do Encontro Mistral, conversamos sobre coisas fascinantes, sobre a fluidez e sobre a accessibilidade, suas preocupações naquele momento. Um cara especial, que diz que talvez venha este ano de novo a São Paulo. Curiosamente, sendo ele o mais injustiçado personagem do tolo livro que resenhei, lembro da primeira vez que assisti Mondovino, numa exibição antes da estréia, num mês de fevereiro durante o Foro em Vic, numa sala gelada e com uns poucos gatos pingados, que riram e se divertiram, sem maldade alguma. No grupo estavam o mais apaixonado importador de Barcelona, Quim Vila, Nicolas Joly e…Telmo Rodriguez.
Como ele trabalha pela Espanha afora, desde a Galicia até Málaga, produzindo Rioja, Ribera del Duero, Valdeorras, Toro, Montilla-Moriles o cineasta logo carimbou seu trabalho de “voador”. Como se não fosse possível conhecer profundamente um vinhedo e uma terra sem ficar plantado no chão 24 horas como um tubérculo.
Os vinhos de Telmo estão à venda na Mistral, os preços variam, a qualidade também, nem todos são espetaculares, mas são profundamente honestos e com um vigor intelectual de busca de uma expressão preciosa dos terroirs e das diferentes uvas regionais que utiliza, como a Monastrell do Al Muvedre e o Moscatel do Molino Real. Não é pouca coisa.
