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Não é difícil ser feliz, descobri. Fácil tampouco, tem um detalhe básico, é preciso estar em Paris. Mas isto é só um detalhe, pois dá para construir uma Paris imaginária em diversos lugares.
Acordei num dia lindo, 8 graus, céu azul e a torre lá tranquilona na janela. Dia de bater perna sem rumo e sem mapa. Saí do hotel e fui conferir um endereço que a Nina me passou, o Au Bon Marché da rue de Sévres. Comprei uns queijos mais pela aparência e por serem não pasteurizados, que pelos nomes. Não estava querendo aprender, nem puxar pela memória, menos ainda pensar, um dia como aquele não foi feito para o pensamento.
Depois na parte de vinhos uma garrafa de um belo Gauby, um branco biodinâmico do Roussilon, velho conhecido.
Voltei para a rua, andei até a Cherche-Midi onde fica a padoca mais linda que já vi, a Poilane, tem um pão de nozes em torno do qual seria fácil construir um templo e passar a venerá-lo. Comprei um (é enorme), outro de centeio, uns croissants, um brioche lindo, perfeito.
Andando e andando sem rumo esbarrei numa lojinha de queijos na Ile Saint-Louis, pedi um reblochon, porque meu kit-queijo não tinha este tão querido, que é este de casca laranja na foto, onde se nota que dei umas dentadas nele antes de fotografar, não deu para esperar!
E três peras, pêras cheias de caldo, doces, duras e macias ao mesmo tempo, como sabem ser as mais inesquecíveis desta fruta favorita e grande companheira para os queijos de cabra e para os queijos em geral.
Depois num banco das Tulherias, com uma insuportável leveza no meu ser, hahaha, tive um momento de perfeição comendo parte disto tudo. Noutro dia foi num banco dos Jardins de Luxembourg, com as folhas de outono caindo. E no terceiro dia, no próprio quarto do hotel, vendo a final da copa do mundo de rugby na tv e com um potinho de ovas a la façon russe (10 euros, não pensem que esbanjo) não pasteurizado e muito, mas muito mais saboroso que ovas pasteurizadas. Porque esta implicância com pasteurização? Porque boa parte das texturas e sabores são alterados pelo processo (eu sei, é para nosso bem, saúde, segurança alimentar, mas…) e a Europa dos burocratas de Bruxelas vai acabar conseguindo banir os queijos rústicos e os processos antigos de fazer as coisas, então é preciso comer antes que eles venham com as leis.
E o repasto ainda rendeu por mais dois dias.
Ser feliz é simples, e barato. Preço dos queijos 20 euros, dos pães todos, 6 euros o imenso de centeio, 4 o de nozes. O vinho 11 euros. As peras 3 euros. Não chegou a 120 reais todo este deslumbramento.
O sujeito que olha as malas no raio-x do aeroporto não deve ter entendido muito bem um cara embarcando com um pacote enorme de pães na bagagem de mão. Ou, sendo francês, talvez tenha entendido perfeitamente bem. Passei a semana comendo pão de nozes da Poilane aqui em São Paulo. Aceito presentes de quem vier de Paris, sem vergonha alguma.
Luiz,
fui a Paris recentemente e ler o seu post deu água na boca e uma saudade…
bjs
Giuliana
Oi Luiz, não sou nova por aqui, leio sempre, mas nunca comentei anteriromente. Gosto do seu jeito de falar da gastronomia, simples como na maioria das vezes ela é.
Mas este post… não poderia deixar de comentar. É isso que mais me encanta em Paris, a simplicidade do cotidiano deles, que mesmo simples não deixa de ser glamurosa, não? Veja que belo beliscado vc saboreou, um prazer e tanto. E nem por isso quebrou seu bolso.
As pessoas sempre me perguntam pq tenho esse lance com Paris, eu explico, mas quem não conhece a cidade ou não liga para os pequenos prazeres, não consegue compreender minha paixão pelo estilo de vida parisiense.
bjs