Gosto de cidades que estão meio ou totalmente fora de foco, mas que tenham frio e umidade. Nunca moraria em Nova York, cidade já ressecada pelo olhar, elegeria Baltimore. Mas muito mais interessantes seriam Montevideu, Trieste, Bratislava ou Léon. Barcelona cansou, está exausta de si mesma. No Brasil, não sei, talvez Caxias do Sul.
Archive for June, 2004
Palavras
In Idéias gerais on June 26, 2004 at 11:50 amTipicidade = bucolismo? Existe a palavra bucolismo? Preguiça de olhar no dicionário, mas soa bem.
Erosão humana
In Idéias gerais on June 26, 2004 at 11:48 amÉ preciso sempre tirar uma colher de areia da base da estátua do líder (ídolo, autoridade, governo, chefe, you name it). Uma colher cheia. Isto em décadas (anos, séculos, milênios…etc) irá derrubá-la.
Conceitos
In Idéias gerais on June 25, 2004 at 10:40 pmTenho umas destas luzes, coisas que se lê e prova e só num momento fazem a digestão no cérebro. De repente entendo a diferença entre terroir e tipicidade. Mesmo com Raffaele Cani da Santadi me dizendo, brincando é claro, que até a igreja bizantina que fica no caminho da bodega, na Sardenha, entra no vinho, o que seria uma visão de “obra de arte total” do conceito de terroir…Mas entendo hoje assim: terroir é geologia, mais que tudo. Tipicidade é geografia.
Geração
In Idéias gerais on June 22, 2004 at 3:45 pmGente que umas décadas atrás queria mudar o mundo, agora está -no máximo- tentando mudar a mão da própria rua, para ficar mais fácil estacionar o carro.
Se eu fôsse um vinho
In Idéias gerais on June 22, 2004 at 6:42 amCor pálida, algo envelhecida. Corpo médio, boa acidez, taninos nobres de carvalho americano (na cara), quase nada de tostado. Melhorou muito na garrafa, tem ainda alguns anos pela frente. Corte de 70 porcento Tempranillo, 20 porcento Garnacha e 10 porcento Pinot Noir (algo raro). Rolha de cortiça natural. Safra 1957. D.O. Somewhere over the rainbow. Etiqueta: Desenho de Chillida. Gradação: 13%.
O livro da Sandrine
In Idéias gerais on June 22, 2004 at 4:46 amComprei o livro que Sandrine não gostou. Eu queria muito, ela largou na página 10. Não sei a razão, talvez porque ela fume tanto e o livro ficasse escorregando enquanto ela tentava alcançar o maço de Gitanes na cabeceira. Ou leu no metrô um pouco e quando chegou em casa se arrependeu da compra. Sandrine usa um perfume bem clássico, com um fixador tremendo. O livro atravessou o Atlântico, passando pela casa da mãe do Dominique em Grenoble. Sandrine deve tê-lo comprado na Fnac, mas conseguiu vendê-lo para mim pela Amazon. Cada vez em que abro o livro o cheiro de cigarro e perfume de Sandrine está presente. Penso se ela estará contente com os 6 euros que recebeu. Eu estou contente com o livro. Mas acho que Sandrine podia tentar largar o cigarro, ou fumar menos.
Vácuo
In Idéias gerais on June 21, 2004 at 6:00 pmO horror ao vazio barroco era uma atitude estética, cujo resultado ainda é agradável até hoje, mesmo que dê a “síndrome de cansaço do baixo-contínuo” em algumas pessoas mais sensíveis. Atualmente tenho percebido (suportado descreveria melhor) uma espécie de horror vacui moral, em que a necessidade de preenchimento de todos os espaços (sonoros, visuais, etc) é mais para evitar olhar para o interior cheio de ar de cada um. Estou quase pedindo: desliguem este oco intelectual aí que eu quero pensar!
Momento Catena
In Idéias gerais on June 20, 2004 at 12:30 pmAs entrevistas que fiz durante o Encontro Mistral pertencem à Mistral, é claro. Entretanto, enquanto vou decifrando minha caligrafia ou degravando (palavra horrível) as fitinhas, vou escrevendo uma espécie de circunstância. Aqui a do Catena Zapata.
Don Nicolás Catena impressiona. Por trás de sua figura, menor que deveria ser (sempre achei que ele seria um índio argentino altíssimo, como o próprio Péron), brilham pequenos olhos azuis, delicadamente colocados no fundo de sua cabeça leonina. Sua voz é suave e aflautada e ele a sopra com grande perfeição. Por alguma razão falar com ele é uma experiência quase mística, embora curiosamente relaxada, como se fossemos velhos conhecidos. Foi esta aura que afasta e aproxima, ao mesmo tempo, que me fêz não chamá-lo como deveria: Dr.Catena, como fazem os anglo-saxões, y compris Dona Jancis, ou de algo mais brasileiro como senhor Catena. Só saiu Don Nicolás.
A simpatia é uma arma poderosa de defesa, qualquer questão mais constrangedora que pudesse ter, algo como o surrado paralelo entre Mondavi e ele (que sei que o desagrada) ficou desarmada por este feitiço da gentileza.
The Real Thing
In Idéias gerais on June 19, 2004 at 9:52 pmThe name is Bolli, Bollinger. A favorita do 007, da chefe dele, a Rainha, da amiga dela Edwina Monsoon e…minha. Só ontem, depois de tantas décadas, num almoço inesquecível (como todas as coisas do genero inesquecíveis, irá desaparecendo lentamente, mas o vinho fica na memória) com o diretor da Maison, Monsieur Philippe Menguy, descobri que tudo que bebi até hoje sob o nome champagne não passava de espumante, pobre da Viuva Clicquot, pobre do querido monge beneditino Pérignon. Este o vinho de champagne verdadeiro, suco de Pinot Noir encorpado, austero, convincente. Uvas Grand Cru e Premier Cru, quer dizer, de parcelas de terra demarcadas, selecionadas, escolhidas, algo que produziria um grande borgonha tinto, se a opção e a região fossem as tais. E mesmo atrás de uma camada de Chardonnay a alma tinta está presente. Nada de explosões de alegria gratuita, mas uma felicidade interna crescente, algo como o nirvana. Nada de bolhas profusas, mas um fio fino, quase inexistente de micro-borbulhas, não diria pérlage, pérolas são grandes, diria mesmo mera agulha, cadeia de atómos. Quanto mais foi avançando o evento, e a qualidade e tempo de guarda das garrafinhas, mais a coisa foi ficando cheia de gravitas. Começamos com a jovem tímida e caladona, mas de trato amável, a Special Cuvée Brut. Depois trocamos umas palavras com a irmã mais velha, mais culta, interessante, Grand Année Brut 95. No final conseguimos alcançar o máximo, fomos admitidos à presença da própria e sábia senhora, uma R.D. Extra Brut 90. Isto mesmo, 1990, quatorze anos de espera para ser engolida com um suspiro de contentamento. Ainda muito fresca devido à acidez tão presente, mas amarelo ambar, cheiro de confeitaria quente num dia de inverno, sabor amendoado (no sentido de amendoas e no de algo oblíquo também). Esta bebida peculiar, afastadissima da exuberancia celebratória dos seus pares, parece mais…parece…não sei, parece com ela mesma, uma Bollinger que fica macerando e envelhecendo na própria borra por todos estes anos até ter sido recentemente degolada, numa tradução literal do R.D. do rótulo. O nome é Bollinger, pronuncia-se Bô-lân-gê, mas isto se a língua ainda conseguir se mover.
Vinho e geografia (ou será vinho é geografia?)
In Idéias gerais on June 19, 2004 at 5:25 pmNo recente Encontro Mistral pude constatar uma coisa que venho intuindo faz um tempo: só são realmente bons os vinhos que respeitam profundamente a geografia, o que se convencionou chamar (e já está enchendo) de terroir. Lugares que tem uvas autoctones e não as utilizam produzem vinhos sem graça. Podem até ser muito corretos, bebíveis, mas sem cárater. No Novo Mundo é inevitável que se faça monovarietais ou mesmo cortes com uvas importadas. E tomei ótimo Pinot Noir da África do Sul, idem Chardonnay. A Sauvignon Blanc da Nova Zelandia, os Merlots argentinos, que começam a ser melhores que os Malbecs e tal. Mas vinhos espanhóis puramente Cabernet Sauvignon, por exemplo, são chatos, aborrecidos. A decepção maior foi o Blecua da Viñas del Vero. Mas toda a linha deles é uma linha reta, justamente (minha tese) porque são monovarietais franceses. A graça de Ribera del Duero é a obssessão pela Tempranillo. Manolo Pérez-Pascuas me disse: “Papai nunca conheceu Cabernet, nem Merlot”. Deu uma respirada: “E nem precisou…”. O único vinho bom da siciliana Spadafora era o de sobremesa, porque 100 porcento Cataratto. O resto era afrancesado. A única vinicola melhor fora do Encontro Mistral, foi a siciliana Donnafugatta, porque era tudo Nero d’Avola, Ansonica e Cataratto. A uva conhece melhor seu lugar. A ambiguidade catalã em ser Europa, Espanha ou Languedoc está nos vinhos muito bem mostrada. Os do Castell del Remei, Celler de Cantonella, são exatamente isto: um pouco de cabernet, um pouco de tempranillo (ull de lliebre), um pouco de merlot. A garnacha que não respeita fronteiras, se esticando por todo o nordeste da Espanha e o sul da França, a Cariñena/Carignan, e por aí afora. É preciso resistir com estas uvas, para que não vire tudo um mar de Cabernets. Já vem esta Mantoneu e Callet de Mallorca, a Mencia do Bierzo, até a Bobal, que parece ser meio bestinha. Mas são as uvas locais, que se melhore com um pingo de francesas, mas que pelo menos sejam experimentadas com vinificação séria antes de serem cortadas. Não fosse esta teimosia e as Tempranillo de mais de 40 anos da Viña Pedrosa teriam virado lenha de fogueira, e sido substituidas por trigo.
Uma frase do guruzinho da internet
In Idéias gerais on June 19, 2004 at 5:23 pmfff: “A gente fica de fora, mas a gente entra de lado. ”